Para sempre

Vergílio Ferreira

Language: Portuguese

Description:

(…) já depois de lido, relido, analisado, estudado e quase sabido de cor, Para Sempre continua a suscitar em mim aquele arrepio total, físico e psíquico, abalo de todas as fibras, que nos faz reconhecer, com Pessoa, que o que em nós sente também pensa e o que em nós pensa também sente. Choque, revelação, surpresa – o sobressalto que só nos provoca a descoberta a descoberta daquilo de que já sabíamos. Comoção totalizadora e excessiva que vai (e vem) das entranhas ao cérebro, do coração à inteligência e que é, estou convicta, a mais plenamente humana das sensações.

Não quero falar de Para Sempre, quero deixar Para Sempre falar-me na memória comovida de um silêncio espesso em que ritmicamente perpassa “o murmúrio do Tempo”. Romance para ler, reler e sentir, antes (ou mesmo em vez) de qualquer explicação. Obra que rejeita liminarmente, por supérfluo e excessivo, qualquer prefácio ou posfácio, tudo o que sobre ela possa escrever-se para figurar num mesmo livro, para anteceder ou seguir um convívio com o seu texto: convívio exaltante que nada substitui, que nada pode (nem deve) preparar.

(…) obra total e perene no seu ritmo circular, princípio e fim, fim e princípio indistintos: ritmo impositivo, eloquente, na força com que cria de novo a etimologia de “perfeição”. Obra eterna e sobre a eternidade, romance de amor, romance filosófico, romance do Tempo, romance do que é essencial ao romance: a Palavra, que gera o Tempo e o configura na sua única dimensão possível – a memória, a narração, a ficção.

(…) incessantemente procurada, ritmicamente celebrada, a Palavra “A Palavra ainda, se ao menos. A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última, a primeira.” (…)

(…) da invenção rítmica vai nascendo em sucessivos começos, suspensões e recomeços. A narração da história que Para Sempre nos conta: a história de Paulo. Velho, triste, viúvo e só. Percorrendo lentamente uma casa fechada, “selada para a eternidade”, “cheia de memória”: “Dou a volta à casa toda, dou a volta à vida toda e é como se um desejo de a totalizar, de a ter na mão.”

Paulo, que se vê a si próprio como Outro(s), que já se sente “fora do tempo da vida”, “póstumo a si próprio”, qual Brás Cubas que ainda está vivo. E sofre. Paulo, já a projectar-se na eternidade, mas ainda preso ao seu instante, vivendo como situação-limite essa quase indizível experiência temporal de ver o Tempo de fora do Tempo e a Vida de fora da Vida. Percepção trágica e violenta da eternidade no instante, vivência, pelo Ser, do tempo do não-ser.

Paulo. Viúvo da Vida porque viúvo de Sandra: “Como é que tu estavas tanto na passagem de mim à vida?”. Sandra. Memória de nunca, envolta num halo de inacessibilidade, sonho que permanece intocável mesmo depois de tocado. A juventude revisitada na velhice, e surgindo aí, com uma luz e uma beleza que nunca tivera e que só adquire na distância que torna a imaginação livre de a inventar. Saudade intensa, tão intensa que tem a força de criar o seu próprio objecto. Sandra.

Paulo. Velho e só. Passos ritmados subindo e descendo escadas, gestos repetidos de abrir e fechar portas e janelas perras, o silêncio cortado por vozes súbitas, que logo se calam para dar lugar a imagens de cenas mudas e cheias de movimento que subitamente se paralisam, se desfocam e por fim se dissolvem de novo no silêncio.

(…) momento alto de uma obra invulgarmente densa e coerente como é a obra de Vergílio Ferreira, Para Sempre evidencia e culmina o êxito de uma procura longa e incansável – “o périplo de uma vida à procura da palavra”: procura da Palavra, da compreensão filosófica da Linguagem, da Arte, do Tempo, da Vida, da Morte, do Homem e da sua condição.

Fernanda Irene Fonseca, Porto, Janeiro de 1993 in Prefácio de Para Sempre de Vergílio Ferreira, Edições ASA