(…) já depois de lido, relido, analisado, estudado e quase
sabido de cor, Para Sempre continua a suscitar em mim aquele arrepio total,
físico e psíquico, abalo de todas as fibras, que nos faz reconhecer, com
Pessoa, que o que em nós sente também pensa e o que em nós pensa também sente.
Choque, revelação, surpresa – o sobressalto que só nos provoca a descoberta a
descoberta daquilo de que já sabíamos. Comoção totalizadora e excessiva que vai
(e vem) das entranhas ao cérebro, do coração à inteligência e que é, estou
convicta, a mais plenamente humana das sensações.
Não quero falar de Para Sempre, quero deixar Para Sempre
falar-me na memória comovida de um silêncio espesso em que ritmicamente
perpassa “o murmúrio do Tempo”. Romance para ler, reler e sentir, antes (ou
mesmo em vez) de qualquer explicação. Obra que rejeita liminarmente, por
supérfluo e excessivo, qualquer prefácio ou posfácio, tudo o que sobre ela
possa escrever-se para figurar num mesmo livro, para anteceder ou seguir um
convívio com o seu texto: convívio exaltante que nada substitui, que nada pode
(nem deve) preparar.
(…) obra total e perene no seu ritmo circular, princípio e
fim, fim e princípio indistintos: ritmo impositivo, eloquente, na força com que
cria de novo a etimologia de “perfeição”. Obra eterna e sobre a eternidade,
romance de amor, romance filosófico, romance do Tempo, romance do que é
essencial ao romance: a Palavra, que gera o Tempo e o configura na sua única
dimensão possível – a memória, a narração, a ficção.
(…) incessantemente procurada, ritmicamente celebrada, a
Palavra “A Palavra ainda, se ao menos. A palavra final. A oculta e breve por
sobre o ruído e a fadiga. A última, a primeira.” (…)
(…) da invenção rítmica vai nascendo em sucessivos começos,
suspensões e recomeços. A narração da história que Para Sempre nos conta: a
história de Paulo. Velho, triste, viúvo e só. Percorrendo lentamente uma casa
fechada, “selada para a eternidade”, “cheia de memória”: “Dou a volta à casa
toda, dou a volta à vida toda e é como se um desejo de a totalizar, de a ter na
mão.”
Paulo, que se vê a si próprio como Outro(s), que já se sente
“fora do tempo da vida”, “póstumo a si próprio”, qual Brás Cubas que ainda está
vivo. E sofre. Paulo, já a projectar-se na eternidade, mas ainda preso ao seu
instante, vivendo como situação-limite essa quase indizível experiência
temporal de ver o Tempo de fora do Tempo e a Vida de fora da Vida. Percepção
trágica e violenta da eternidade no instante, vivência, pelo Ser, do tempo do
não-ser.
Paulo. Viúvo da Vida porque viúvo de Sandra: “Como é que tu
estavas tanto na passagem de mim à vida?”. Sandra. Memória de nunca, envolta
num halo de inacessibilidade, sonho que permanece intocável mesmo depois de
tocado. A juventude revisitada na velhice, e surgindo aí, com uma luz e uma
beleza que nunca tivera e que só adquire na distância que torna a imaginação
livre de a inventar. Saudade intensa, tão intensa que tem a força de criar o
seu próprio objecto. Sandra.
Paulo. Velho e só. Passos ritmados subindo e descendo
escadas, gestos repetidos de abrir e fechar portas e janelas perras, o silêncio
cortado por vozes súbitas, que logo se calam para dar lugar a imagens de cenas
mudas e cheias de movimento que subitamente se paralisam, se desfocam e por fim
se dissolvem de novo no silêncio.
(…) momento alto de uma obra invulgarmente densa e coerente
como é a obra de Vergílio Ferreira, Para Sempre evidencia e culmina o êxito de
uma procura longa e incansável – “o périplo de uma vida à procura da palavra”:
procura da Palavra, da compreensão filosófica da Linguagem, da Arte, do Tempo,
da Vida, da Morte, do Homem e da sua condição.
Fernanda Irene Fonseca, Porto, Janeiro de 1993 in Prefácio
de Para Sempre de Vergílio Ferreira, Edições ASA
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(…) já depois de lido, relido, analisado, estudado e quase sabido de cor, Para Sempre continua a suscitar em mim aquele arrepio total, físico e psíquico, abalo de todas as fibras, que nos faz reconhecer, com Pessoa, que o que em nós sente também pensa e o que em nós pensa também sente. Choque, revelação, surpresa – o sobressalto que só nos provoca a descoberta a descoberta daquilo de que já sabíamos. Comoção totalizadora e excessiva que vai (e vem) das entranhas ao cérebro, do coração à inteligência e que é, estou convicta, a mais plenamente humana das sensações.
Não quero falar de Para Sempre, quero deixar Para Sempre falar-me na memória comovida de um silêncio espesso em que ritmicamente perpassa “o murmúrio do Tempo”. Romance para ler, reler e sentir, antes (ou mesmo em vez) de qualquer explicação. Obra que rejeita liminarmente, por supérfluo e excessivo, qualquer prefácio ou posfácio, tudo o que sobre ela possa escrever-se para figurar num mesmo livro, para anteceder ou seguir um convívio com o seu texto: convívio exaltante que nada substitui, que nada pode (nem deve) preparar.
(…) obra total e perene no seu ritmo circular, princípio e fim, fim e princípio indistintos: ritmo impositivo, eloquente, na força com que cria de novo a etimologia de “perfeição”. Obra eterna e sobre a eternidade, romance de amor, romance filosófico, romance do Tempo, romance do que é essencial ao romance: a Palavra, que gera o Tempo e o configura na sua única dimensão possível – a memória, a narração, a ficção.
(…) incessantemente procurada, ritmicamente celebrada, a Palavra “A Palavra ainda, se ao menos. A palavra final. A oculta e breve por sobre o ruído e a fadiga. A última, a primeira.” (…)
(…) da invenção rítmica vai nascendo em sucessivos começos, suspensões e recomeços. A narração da história que Para Sempre nos conta: a história de Paulo. Velho, triste, viúvo e só. Percorrendo lentamente uma casa fechada, “selada para a eternidade”, “cheia de memória”: “Dou a volta à casa toda, dou a volta à vida toda e é como se um desejo de a totalizar, de a ter na mão.”
Paulo, que se vê a si próprio como Outro(s), que já se sente “fora do tempo da vida”, “póstumo a si próprio”, qual Brás Cubas que ainda está vivo. E sofre. Paulo, já a projectar-se na eternidade, mas ainda preso ao seu instante, vivendo como situação-limite essa quase indizível experiência temporal de ver o Tempo de fora do Tempo e a Vida de fora da Vida. Percepção trágica e violenta da eternidade no instante, vivência, pelo Ser, do tempo do não-ser.
Paulo. Viúvo da Vida porque viúvo de Sandra: “Como é que tu estavas tanto na passagem de mim à vida?”. Sandra. Memória de nunca, envolta num halo de inacessibilidade, sonho que permanece intocável mesmo depois de tocado. A juventude revisitada na velhice, e surgindo aí, com uma luz e uma beleza que nunca tivera e que só adquire na distância que torna a imaginação livre de a inventar. Saudade intensa, tão intensa que tem a força de criar o seu próprio objecto. Sandra.
Paulo. Velho e só. Passos ritmados subindo e descendo escadas, gestos repetidos de abrir e fechar portas e janelas perras, o silêncio cortado por vozes súbitas, que logo se calam para dar lugar a imagens de cenas mudas e cheias de movimento que subitamente se paralisam, se desfocam e por fim se dissolvem de novo no silêncio.
(…) momento alto de uma obra invulgarmente densa e coerente como é a obra de Vergílio Ferreira, Para Sempre evidencia e culmina o êxito de uma procura longa e incansável – “o périplo de uma vida à procura da palavra”: procura da Palavra, da compreensão filosófica da Linguagem, da Arte, do Tempo, da Vida, da Morte, do Homem e da sua condição.
Fernanda Irene Fonseca, Porto, Janeiro de 1993 in Prefácio de Para Sempre de Vergílio Ferreira, Edições ASA