O terreno de jogo estendia-se às searas indomáveis de centeio e trigo,
atravessadas por labirintos e túneis vegetais, onde jogávamos às
escondidas. Foi numa dessas brincadeiras que um saquinho de lã,
azul-pálido, azul-bebé, me conduziu ao primeiro morto. Ao primeiro
nado-morto da minha longa vida de mortos.
O corpo morria asfixiado num saco de plástico, ensanguentado. O vento
chicoteava as espigas e escoava o fedor da morte, pelo ventre da terra
revolvida. Foi também o vento que denunciou o barulho de passos nas
proximidades, ainda a tempo de tornar-me invisível. Por entre as espigas
altas, vi a figura da minha mãe crescer, passo a passo. Vi os seus
chinelos rasos de trazer por casa a pisar as hastes amareladas, mas
ainda tenras do trigal. Usava o mesmo avental, estampado de um violento
colorido de frutos vermelhos, que lhe vira vestir na manhã desse dia.
Como era seu hábito, as mãos vinham abrigadas sob o avental, como se
transportassem um segredo. Em casa, era o gesto que calava as cartas dos
seus amantes. Ela não sabia que eu sabia do seu disfarce.
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O corpo morria asfixiado num saco de plástico, ensanguentado. O vento chicoteava as espigas e escoava o fedor da morte, pelo ventre da terra revolvida. Foi também o vento que denunciou o barulho de passos nas proximidades, ainda a tempo de tornar-me invisível. Por entre as espigas altas, vi a figura da minha mãe crescer, passo a passo. Vi os seus chinelos rasos de trazer por casa a pisar as hastes amareladas, mas ainda tenras do trigal. Usava o mesmo avental, estampado de um violento colorido de frutos vermelhos, que lhe vira vestir na manhã desse dia. Como era seu hábito, as mãos vinham abrigadas sob o avental, como se transportassem um segredo. Em casa, era o gesto que calava as cartas dos seus amantes. Ela não sabia que eu sabia do seu disfarce.