Auto de fé foi publicado pela primeira vez, em Viena, em 1935. O romance passou praticamente despercebido, até que, logo após a segunda guerra mundial, traduzido em francês e inglês, teve acolhida excepcional de crítica e público, repercutindo sobre a própria edição em alemão.
Marcado pela permanente invenção concreta, fazendo-a permear a narrativa por inteiro e a caracterização dos personagens, Canetti construiu, em Auto de fé, um romance monumental em que o leitor vislumbra todos, sem exceção, os dilemas do homem contemporâneo, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista social e político.
O principal personagem é um professor, um dos mais eminentes sinólogos de sua época, cuja obsessão são os livros e a erudição — coisas que não lhe permitem nenhum contato objetivo e prático com a “realidade” que o oprime. Os outros personagens que o cercam e atormentam formam um verdadeiro painel caricatural das relações humanas tais como condicionadas na totalidade das sociedades de hoje.
Tudo isso forma um universo de sufocação e horror, em que qualquer gesto de pretensa liberdade é de imediato transformado em paródia da incapacidade do homem de se purgar do que tem de pior: o instinto de posse e dominação. A história desse desventurado professor e o mundo em que ele e seus companheiros se movem são mostrados por Canetti com a mesma violência que o mais violento quadro de um pintor como Hieronymus Bosch, e de um modo tão ou mais implacável que a mais implacável história narrada pelo seu estimado colega de ofício, Franz Kafka.
Description: